Metro de Lisboa – uma galeria de arte subterrânea

Escrito por Estera Malek – estagiária polaca – 1 de outubro a 31 de dezembro de 2015

Para escrever o meu artigo sobre um aspeto da cultura e vida portuguesa não escolhi o fado nem as sardinhas ou outra coisa tão caraterística pois considero que já está escrito e contada muita coisa sobre esses assuntos.

Tive muita sorte em morar em Lisboa durante três meses, por isso sabia que iria ser algo relacionado com esta cidade. A minha escolha foi o metro, que durante este tempo foi basicamente o meio de transporte que mais utilizei. Viajando nele reparei que algumas estações são mais interessantes do que outras – pela sua construção e decoração. Por isso decidi vê-las todas e documentá-las através de fotografias. Depois deste trabalho, que demorou bastante tempo, fiz pesquisa sobre os autores das ilustrações do metro e as razões da sua existência nesse sítio. O que encontrei dá material para um livro, mas tentarei resumi-lo num artigo conciso e concreto de forma a incentivar-vos a viver esta aventura e descobrir o metro por vocês mesmos. Porque vale a pena.

Um pouco de história

O sistema de metropolitano tem já 56 anos. O nome que se repete nos textos sobre a sua história é o de Francisco Keil do Amaral, o arquiteto que desenhou as primeiras estações e com muitas a ficarem até hoje sem muitas transformações. O seu desenho implicava revestimentos em azulejos que cobrem hoje quase cada estação. Com o tempo e com a criação de novas estações nasceu também a necessidade de organizar e decorar as estações. Nessa medida, dotaram-se essas novas estações de intervenções de quatro artistas contemporâneos portugueses. Rolando Sá Nogueira (nas Laranjeiras), Júlio Pomar (no Alto dos Moinhos), Manuel Cargaleiro (no Colégio Militar/Luz) e Vieira da Silva (na estação da Cidade Universitária), deram o seu contributo no enriquecimento das estações do metro. Desde aquele momento que a arte passou a ser uma parte integral das estações.

Começar a aventura – Linha vermelha

A Linha vermelha foi a que eu apanhei com mais frequência e aquela que fiquei a conhecer melhor entre todas aquelas por onde passei. Nesta linha quero destacar as estações: Olaias, Aeroporto, Chelas, Oriente, Olivais e Saldanha.

Olaias

Uma das estações inauguradas no ano do Expo 98, em conjunto com Alameda, Bela Vista, Chelas e Oriente. Uma estação enorme com espaço muito grande, no cais e no átrio. O projeto arquitetónico é da autoria do arquiteto Tomás Taveira, que também contribuiu no tratamento plástico da estação juntamente com os artistas plásticos Pedro Cabrita Reis, Graça Pereira Coutinho, Pedro Calapez e Rui Sanchez. No ano 2012, um artigo da Impact your World, da cadeia de notícias norte-americana CNN, escolheu esta estação como uma das dez mais belas da Europa.

Não se pode negar esta beleza – a estação está cheia de cores e elementos arquitetónicos muito interessantes. A minha favorita é a sardinha gigante. Predomina a cor vermelha (utilizando associações com cores da mesma linha) mas não falta também o branco, amarelo ou azul. Tudo cria uma impressão dum grande aquário com muitos tipos de plantas marinhas que brilham debaixo de água.

Nos cais e no átrio de Olaias encontramos alguns elementos específicos, como uma escultura em chapa metálica pintada de preto e branco, denominada “Ascensão”. Trata-se de uma escadaria que proporciona ao cliente do Metropolitano uma “subida simbólica”, num local onde convergem as próprias escadarias e escadas rolantes da estação.

Nas quatro paredes de acesso aos cais há um revestimento em baixo-relevo numa textura arenosa representando marcas de mãos que simbolizam o movimento da passagem humana pelo local – a individualidade de cada um.

Aeroporto

Esta é a primeira estação vista por muitos turistas que chegam a Lisboa de avião. O projeto é da autoria do arquiteto Leopoldo de Almeida Rosa e as intervenções plásticas do artista plástico António Antunes, cartoonista.

As figuras foram produzidas em pedra branca e negra. Todas as peças que compõem as figuras foram recortadas a jacto de água, constituindo cada uma delas uma peça de um puzzle.

Do trabalho desenvolvido por este ilustrador resultou um conjunto de 50 figuras em 49 painéis dispersos pela estação, constituindo assim uma homenagem a várias figuras representativas da história moderna de Portugal, que dão as boas vindas aos visitantes que entram em Lisboa.

Para mim foi e ainda é um mistério adivinhar os nomes destas figuras. Uma delas acho que pode ser Marisa, fadista portuguesa conhecida em tudo o mundo, mas no futuro, para decifrar o resto, vou ter de fazer mais pesquisa.

Chelas

Chelas fica mesmo ao lado do Instituto Superior de Engenharia de Lisboa. Uma das mais coloridas estações, o projeto arquitetónico é da autoria da arquiteta Ana Nascimento e as intervenções plásticas do artista plástico Jorge Martins que implicou a conceção do revestimento de, praticamente, toda a área da estação, tendo mesmo sido revestidas as colunas a azulejo.

Oriente

Esta estação faz parte da Gare do Oriente, que serve as Linhas do Norte, Sintra e Azambuja. Fica ao lado de Parque das Nações. Está cheia de obras de vários autores – entre outras uma polaca. O projeto arquitetónico é da autoria do arquiteto Sanchez Jorge e as intervenções plásticas do artistas plásticos António Ségui, Artur Boyd, Errö, Hundertwasser, Yahou-Kussuma, Joaquim Rodrigo, Abdoulaye Konaté, Sean Scully, Raza, Zao Wou Ki e Magdalena Abakanowicz. A estação Oriente faz enorme impressão sobretudo pelo seu tamanho e pela quantidade de obras artísticas que podemos admirar nela.

O tema de todas obras que podemos ver foi o tema principal da Expo ’98Os Oceanos.

O convidar artistas plásticos para intervirem nas várias estações novas ou em remodelações das antigas foi uma ideia sempre promovida pelo Metropolitano de Lisboa. Nesta estação compreende-se que o Metropolitano tenha alargado o seu convite a artistas de todo o Mundo. Para isso foram convidados onze artistas de reconhecido mérito internacional representativos dos cinco continentes – cinco europeus, três asiáticos, um africano, um americano e um australiano.

Olivais

Esta estação chamou a minha atenção por presença da calçada portuguesa. Não é única estação com o chão arranjado deste modo, mas acho que é a mais chamativa. No entanto não faltam também os imagens que podemos observar nos azulejos que cobrem as paredes dos cais. Estas estão relacionadas com uma personagem histórica – o navegador Vasco da Gama.

Os painéis de azulejos do revestimento dos cais de embarque são da autoria de Nuno de Siqueira. Neles o artista pretende lembrar a participação portuguesa no desenvolvimento da modernidade que, segundo ele, se consubstancia na viagem de Vasco da Gama.

No seu trabalho Nuno de Siqueira pôs alguns símbolos ligados à história, tais como: Cérberos (da mitologia grega), a Torre de Belém, Fátima, uma saída de uma nave.

Saldanha

O que chama a atenção do viajante na estação Saldanha da linha vermelha são os esboços e as frases postas com parangonas nas paredes dos cais. Esta Intervenção plástica tem como objetivo evocar o trabalho de Almada Negreiros, centrando-se na sua obra literária (manifestos, poemas, romances e teatro) e na sua obra plástica como desenhos e pinturas de grande dimensão. O aspeto plástico geral é simples e claro.

Linha verde

Na linha verde as estações mais interessantes são Cais do Sodré, Marquês de Pombal e Alvalade.

Cais do Sodré

Uma das minhas estações preferidas, devido à presença dos imagens dos coelhos enormes como se fugissem diretamente das páginas do livro de Lewis Carroll – “Alice no País das Maravilhas”. Debaixo dos coelhos podemos ler: „estou atrasado”, que não deixa nenhuma dúvida que a inspiração vem do mesmo livro. Esta intervenção plástica vem de António Dacosta, pintor surrealista e depois abstrato, que foi também membro do Grupo Surrealista de Lisboa. Antes de falecer deixou alguns esboços para a estação Cais do Sodré que foram integrados na estação segundo a interpretação do pintor Pedro Morais.

Marquês de Pombal

Esta estação tem pouca decoração (em comparação com outras já descritas) – somente uma figura duma personagem misteriosa que se repete em vários sítios. O que lhe dá este aspeto do mistério é que não podemos ver a cara dessa personagem. Mas não é difícil adivinhar quem é. O Marquês de Pombal, figura carismática da história portuguesa, que dá nome ao local, constitui o mote principal das intervenções plásticas de Menez e João Cutileiro.

No espaço que separa as duas linhas o escultor João Cutileiro colocou a figura do Marquês de Pombal representado com o seu atributo mais identificativo, a exuberante cabeleira. Numa das mãos segura um rolo de papel, possivelmente os planos de reconstrução da cidade, ou os seus tão célebres decretos. As esculturas encontram-se sempre de costas para acentuar o caráter enigmático e misterioso desta controversa figura histórica.

Alvalade

A minha primeira associação depois de ver as imagens dos cais desta estação foi o circo, sobretudo pelas cores fortes e alegres, pela presença dos animais e por cenas grotescas. Mas depois de consultar fontes adequadas já sei que o verdadeiro tema foram as mulheres, os animais e o jogo de sedução. Alguns pormenores do grafismo são inspirados na história tradicional portuguesa “O MACACO DO RABO CORTADO, que do rabo fez navalha, da navalha fez sardinha … que aparecia no nosso livro da primária”. Assim num dos painéis dos azulejos aparece o macaco desconfiado a olhar para a tesoura e a sardinha. Noutro painel, o tema da noite, simbolizado pelo mocho, bicho misterioso, um voyeur silencioso. No painel de maiores dimensões as meninas jogam à maneira da belle époque. Vale a pena mencionar que todos os azulejos foram pintados à mão com a técnica da majólica.

LINHA AZUL

Na linha azul destacam-se as estações: Colégio Militar/Luz, Jardim Zoológico, Laranjeiras, Alto dos Moinhos, Parque.

Colégio Militar/Luz

Uma das estações mais azuis. Na mesmo site do metro de Lisboa podemos ler que “Manuel Cargaleiro deixou ao alcance do cliente do Metropolitano a possibilidade de apreciar uma obra onde é utilizado o Saber Secular da Arte do Azulejo.”

Jardim Zoológico

A decoração desta estação está vinculada com o nome dela. Das paredes olham-nos animais desenhados nos amáveis tons de amarelo, verde claro e azul claro. A Júlio Resende, autor do grafismo, deu vida a todo este enorme espaço e a proximidade do Jardim Zoológico trouxe-lhe a inspiração da temática: a natureza, a fauna e a flora tropicais.

Para realizar esta tarefa Resende esteve dois anos a pintar pela sua própria mão toda esta enorme superfície. Para o chão escolheu a calçada à portuguesa, que aqui fugiu aos desenhos tradicionais, cobrindo-a com sinuosas cobras que orientam os caminhos, plantas e flores que” brotam” do chão.

Encontramos assim, nesta estação do Jardim Zoológico, um imaginário tropical de grande beleza.

Laranjeiras

Se a inspiração da decoração da estação Jardim Zoológico foi óbvia, Laranjeiras também não vai ser nenhum mistério. As paredes dos cais ficam decoradas por imagens das enormes laranjas. O que é interessante é a técnica de que a obra está feita. Sá Nogueira, o autor, passou a determinada altura a recorrer à fotografia enquanto método possível de obter uma representação hiper-realista. É dentro desta fase que se pode incluir o trabalho plástico da estação Laranjeiras. As laranjas parecem umas fotografias enormes feitas nos azulejos das paredes da estação.

Alto dos Moinhos

A decoração desta estação pode ser facilmente confundida com o simples street art – os grafismos parecem esboços recém feitos só com uma caneta. Tendo presente que nos espaços públicos surgem de forma natural e espontânea graffitis, Júlio Pomar resolveu antecipar-se às mãos anónimas, colocando aí “graffitis” da sua própria lavra. Desta maneira o artista homenageou quatro nomes das letras portuguesas, Camões, Bocage, Pessoa, Almada, com os quais as imagens estão diretamente relacionadas.

Parque

Considero esta a estação mais gira de todas. Depois de sair do metro senti-me como se tivesse chegado a um outro mundo – um mundo submarino. Tudo isto pela sensação da omnipresente cor azul. Depois desta primeira impressão comecei a examinar os azulejos de maneira mais minuciosa. Encontrei uma quantidade inumerável de símbolos relacionados com a temática da Expansão e Descobrimentos portugueses em alternância com frases de escritores, poetas, e filósofos. Entre vários símbolos e imagens podemos encontrar “um mapa-mundo com a indicação das rotas que os portugueses trilharam, delimitadas por retângulos numerados, que por sua vez vão surgindo ao longo das plataformas, seguindo uma lógica temático-cronológica.”

Para a compreensão deste enorme conjunto de informação, a autora dá-nos a chave da simbologia usada nas legendas dos mapas, que se encontram nos lanços das escadas que dão acesso aos cais, escrevendo: “Estas imagens são símbolos e representam ideias maiores que elas próprias”.

Este trabalho está cheio de conteúdo simbólico, que permite aos utilizadores do metro terem algo de interessante e enriquecedor para descobrir todas as vezes que passarem por esta estação.

LINHA AMARELA

As estações que se devem ver nesta linha são: Saldanha, Campo Grande, Campo Pequeno, Picoas.

Saldanha

Nos cais da linha amarela na estação Saldanha encontram-se os painéis com imagens feitas nos azulejos. Cada um deles está descrito, assim temos: os quatro elementos, Terra, Água, Ar e Fogo, as estações do ano, momentos como o Encontro, a Despedida e a Espera. Os cinco sentidos, figuras de convite e motivos decorativos ao gosto barroco com presença dos elementos dourados, estão colocados em nichos. Predominam cores amarelas e castanhas, tudo fica muito giro e cria uma total coerente.

Lendo as informações mais detalhadas averiguei que esta intervenção plástica evoca o trabalho de Almada Negreiros, e ficou a cargo do seu filho José Almada Negreiros, centrando-se na sua obra literária (manifestos, poemas, romances e teatro) e na sua obra plástica como desenhos e pinturas de grande dimensão.

Campo Grande

Uma estação com decorações um pouco escondidas (não ficam nos cais) e muito surpreendentes. No espaço interior da estação Campo Grande o artista Eduardo Nery realizou uma decoração baseada em figuras típicas da azulejaria do século XVIII, as “figuras de convite”, que habitualmente eram colocadas à entrada, numa atitude de boas-vindas. A adaptação destas imagens históricas é mudada para a maneira moderna, um pouco surrealista. As imagens pintadas com tradicional cor azul ficam quebradas e desmontadas mediante uma mudança dos sítios dos mesmos azulejos e depois novamente compostas. O efeito artístico é muito engraçado e interessante. Acho que foi esta a estação onde decidi documentar cada imagem da decoração encontrada.

Campo Pequeno

No cais da estação do metro Campo Pequeno a primeira coisa que chama a nossa atenção são as figuras dumas pessoas feitas de mármores portugueses colocadas numas plataformas. As pessoas têm com eles vários objetos: as cartas, uma cesta com frutas, um jarro.

O local da estação é uma zona de Lisboa onde se dava a entrada na cidade das populações das zonas rurais que a envolvem, e que vinham à cidade vender os seus produtos.

Francisco Simões com este seu trabalho homenageia estas figuras típicas.

O autor considera-se um descendente dos escultores da escola de Mafra, das suas técnicas manuais de dar vida à pedra.

Picoas

Foi uma das estações que resultou ser difícil para mim de decifrar e interpretar. O que reparei foram imagens simbólicas, como um barco do escudo de Lisboa, mas não averiguei a sua temática que são as mulheres de Lisboa. Nos azulejos dos cais podemos ver imagens das Mulheres de Trabalho vendedeiras, peixeiras, vultos negros estilizados, numa atitude que pretende acentuar a sua dignidade e elegância. A heráldica da cidade de Lisboa, a barca com os corvos, a bandeira negra e branca da cidade, colunas romanas, tudo isto resulta ser um conjunto temático.

Mas o que despertou a minha verdadeira curiosidade fica sesta vez ao ar livre. Estou a falar duma entrada de estilo secessão, única assim, muito distinta das outras entradas ao metro. Com uma casualidade completa alguns dias depois de a ver encontrei uma fotografia do metro de Paris. As entradas dali são iguais. A solução deste mistério encontrei-a outra vez no mesmo site do metro: No átrio Sul, acesso da Rua Andrade Corvo, oferecida pelo Metropolitano de Paris e inserida num programa de intercâmbio cultural entre redes de metropolitano, foi instalada uma peça de mobiliário urbano, conhecida por acesso Guimard. Estes acessos foram criados no início do século por Hector Guimard, grande nome da Arte Nova, para ornamentar as entradas do Metropolitano de Paris.

Esta é uma peça emblemática da Arte nos Metropolitanos e, quando surgiram, tiveram grande impacto na paisagem urbana parisiense. O estilo artístico em que foram construídas, não sendo conhecido da generalidade das pessoas, estas designavam-no por “Estilo Metro”. Hoje estas peças fazem parte integrante do património artístico parisiense, constituindo mesmo um “ex-libris” da cidade.

Tudo isto foi uma grande aventura lisboeta que realizei durante três semanas da minha pesquisa. Fico muito contente de ter escolhido este tema porque trouxe-me muita diversão e muita satisfação. Com este texto quero incentivar toda a gente a visitar as estações que descrevi e para fazer pesquisas parecida à que fiz, nesta cidade de maravilhas: Lisboa.

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